A vida que olha a vida

Era uma vez, a muito tempo atrás, num reino infinitamente pequeno e denso, de onde um espontâneo grito deu origem a uma porção de matéria escura que colapsou sobre a força da própria gravidade gerando as partículas que são substância do universo. Esses pequenos pedaços foram então se juntando e formando conjuntos tão grandes que tornavam o seu centro deles apertados o bastante para fundir essas pequenas pecinhas de universo, criando novas dessas pecinhas, com propriedades tão inéditas quanto. Passado enorme tempo, essas peças se juntavam a outras, que se juntavam por conseguinte gerando a cada passo novos materiais. A pressão exercida por esses novos participantes do jogo cósmico era tão grande que ocasionava a expansão acelerada desses conjuntos de forma violenta, espalhando pelo infinito todos esses ingredientes forjados ali que então se aglomerariam em novas porções.

Uma dessas deixou atrás de si um rastro de materiais pesados, atraindo a si somente aqueles mais leves. Logo, esses materiais pesados se aglomeraram novamente e passaram a ser atraídos por essa porção maior sem se confundir com ela, numa órbita perigosa. Essa porção central então passou a experimentar o que suas irmãs passaram nos primórdios, novas fusões começaram a acontecer gerando energia o bastante para aquece-la e emanar calor para os objetos que se formavam orbitando a sua volta. Um desses objetos é o que chamamos hoje de lar. Uma porção de matéria forjada nos primeiros brilhos no escuro infinito que se aglomerou em torno de uma recém-nascida e brilhante estrela que vemos todos os dias subir e descer ao horizonte.

Na sua infância, nosso lar era quente. Leitos de lava cortavam e rasgavam frágeis cortinas de terra criando um verdadeiro oceano de fogo. Nossa pequena bola de rocha flamejante queimava enquanto era golpeada por toda sorte de material que viajava pelo espaço até encontrar seu destino vermelho, trazendo elementos como água, carbono, e outros tão interessantes quanto; um desses murros celestiais sendo tão forte que arremessou para fora uma parte grande desse rochedo, passando a orbitar numa dança eterna com o jovem pedregulho ferido, nossa prateada companheira. Com esses golpes e com a ação do tempo, nossa casa foi resfriando ao ponto de comportar água em estado líquido, que logo tomou conta do lugar. A escarlate e tórrida esfera agora se tornava vagarosamente parecida com o que temos hoje.

Enquanto se resfriava e na presença de água, tempestades e outras condições um curioso evento ocorreu. Pequenos daqueles pedaços paridos no interior dos primeiros astros na profundidade dos oceanos se juntaram de forma instável. Instabilidade que ocasionava na separação deles em pedaços similares mas que sozinhos se tornavam tão instáveis quanto, levando a novas junções. A estabilidade sendo encontrada apenas nesse dividir e juntar. Resultado disso foi a multiplicação veloz desses grupamentos, aumentando exponencialmente em número.

Com essa incessante e frenética reprodução, erros eram inevitáveis. Porém, alguns erros garantiam ora mais estabilidade dessas conexões, ora mais capacidade de reprodução. Fato é que essas mutações garantiram o aumento em número das combinações novas em comparação às anteriores. Não imunes a esse processo, essas últimas também se reproduziam com eventuais erros. Alguns levavam ao fim da continuidade desses novos grupos, outros aumentavam a adaptação ao meio.

Dado bastante tempo para esse processo continuar a ocorrer, logo surgiram novos complexos desses materiais capazes de ativamente ir atrás de seus componentes que possibilitem a sua manutenção e sobrevivência, de se reproduzir, de fazer tudo aquilo que nos leva a dizer que se trata da Vida na sua forma mais pura. Da natureza inorgânica emergia a natureza orgânica. Surgiam os organismos.

Chamamos a esse conjunto de eventos, em que esses pequenos seres se multiplicam e produzem erros que aumentam sua adaptabilidade ao meio circundante de evolução. Com o decorrer dos muitos e muitos anos, surgiram seres que dominaram completamente o reino das águas e que logo passaram a dominar a terra e os céus. Logo, um tipo específico deles começou a sua longa hegemonia, répteis, dos minúsculos aos enormes que só não continuam a vagar por aqui devido a um golpe celestial similar àquele que sem o qual não seria possível o aparecimento deles. Sideral ironia.

Com a morte de seus principais predadores, organismos de sangue quente puderam se aventurar e dominar a terra varrida. A evolução os equipou com um gerenciador central de ações muito mais efetivo que aquele dos dinossauros, o sistema nervoso, que desses animais agora era capaz de produzir reações emocionais autênticas, tornando a relação com o mundo mais rica. Eram agora capazes de aprender muito mais e fazer muito mais.

Com a dura competição entre os bichos, andar em grupo era cada vez mais importante. Assim como passou a ser também a sinalização entre eles. Tal qual nos primórdios da vida, a reprodução desses animais de bando produziu um indivíduo mais capaz que os outros de comunicar a chegada de possíveis ameaças e de prováveis oportunidades. Não é difícil imaginar que estes eram privilegiados no bando e que tinham maiores condições de passarem suas características para futuras gerações, se alimentando mais e se envolvendo com mais frequência em atos reprodutivos. Com o tempo, esses grupos tagarelas foram sendo capazes de falar cada vez mais e melhor. A evolução das espécies e a pressão do ambiente levou esses grupos que viviam no alto das árvores a descerem de sua zona de conforto, e é aí que a nossa história começa de verdade.

Descendo das árvores, andar em pé foi uma condição privilegiada, e aqueles capazes de fazê-lo tinha mais sucesso na natureza que os que eram incapazes. O andar ereto possibilitou ver mais longe, olhar para frente, mapear melhor o entorno, balanceou a temperatura corporal e principalmente liberou as mãos, as deixando livres para manusear os objetos que se espalhavam pela superfície do nosso rochedo que orbita o gentil e aquecido conglomerado que chamamos Sol.

Contudo, a bacia e ossos associados se estreitaram com a postura ereta, não permitindo que as fêmeas gerassem seus filhos do mesmo tamanho que antes, o que era fatal a ambos quando ocorria. Dessa forma, os bebês começaram a nascer cada vez mais cedo. Ao ponto que passaram a nascer totalmente indefesos e sem a menor chance de sucesso sozinhos; diferentemente de outros animais que nasciam andando, comendo e brincando. Todavia, vir à mundo tão novo assim ampliava o período de aprendizado desses pequenos seres, e fazia da presença de semelhantes a eles algo de bom e belo, produzindo uma tendência que se estendia por sua vida de se aproximar e fazer aproximar esses comuns.

Graças ao aparelho nervoso que evoluiu com aqueles primeiros animais de sangue quente, era possível a esses animais amar. Mais que isso, era questão de sobrevivência amar e também ser amado, já que sem seus pares, suas chances de vida eram quase nulas.

Do amor, do andar ereto, mãos livres, do nascer indefeso e da comunicação, ocorreu uma mutação que sem dúvida foi a mais importante na nossa história. O desenvolvimento de uma camada fina no principal órgão que coordena as ações desses animais. Que pequena mas estrondosa mudança. Essa pequena casca que se desenvolveu nos tornou especialmente sensíveis ao que os rodeava, especialmente sensíveis ao outro e a eles mesmos. Se podia então falar em humanidade.

Agora o que era conjunto de pequenos pedaços forjados nas estrelas, matéria inorgânica, animal, era agora Humano. Um ser diferente de tudo que já havia se formado, no entanto que era tão igual ao que se fazia rodear. Esses pequenos e indivisíveis pedaços que formavam o corpo desses seres agora eram um todo que sentia, agia e era sensível a esses eventos de tal maneira que criva uma realidade única, à parte, o universo do símbolo e da representação.

Na ausência do predador, o Humano agora era capaz de fazê-lo presente ao chamá-lo como tal. Sua vocalização não se prendia mecanicamente mais ao aqui e ao agora, se tornara um ser quadridimensional, onde o tempo passou a constituí-lo tanto quanto esses pequenos e vibrantes átomos, sem deixar de ser cosmos. Aprendemos dessa experiência a questionar, e a responder também, embora nunca satisfeitos. De onde viemos? Por que queremos saber de onde viemos?

O céu noturno agora era mais que pura luz, era lindo, era mágico, era divino. Vislumbrante e maravilhoso se inaugurava o primeiro olhar da Vida sobre ela mesma. Nos tornamos o Cosmos que olha a si mesmo, se pergunta, se confronta, se vive, se desdobra, se faz, que se pensa.

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