O que a internet fez com um garoto de 13 anos

Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você. (Jean-Paul Sartre)

A vida é cheia de surpresas.

Limpando meus emails eu encontro uma mensagem antiga enviada para mim mesmo de uma conta que eu nem lembrava que existia. Recuperei o acesso a essa conta e fui tomado de uma nostalgia que me levou a escrever esse artigo.

Para quem não sabe, eu já tive alguns projetos na internet. A maior parte deles eu dei início na minha adolescência. Aprendi algumas coisas e mudei muito no processo. E é sobre isso que eu vou escrever agora. Como a internet mudou minha vida.

Começo perguntado para você, o que você acha que um menino de 13 anos faz com um computador novo e acesso à internet (de 100kbps, mas ainda assim acesso)?

Exatamente isso que você pensou. Ele decide começar um blog.

Um blog simples. Layout clássico, template preto e um subdomínio Blogspot. Mas acima de tudo, um blog. E para mim aquilo já era muito. Era meu lugar na internet.

Fascinado com a infinidade de possibilidades que aquela tela trazia eu voei.

Primeiro queria que meu blog fosse bonito e exatamente do jeito que eu queria, e para que isso fosse possível eu teria que ir além dos temas disponíveis na plataforma. Fui aprender HTML e CSS, linguagens de programação para a web. De uma forma assistemática mas que funcionou para mim.

Queria que ele tivesse acessos então tratei de aprender, também de forma assistemática, SEO (Search Engine Optimization, que dito de forma mais simples é uma série de coisas que você faz para seu site subir nas pesquisas do Google), fazer networking com outros blogs e produzir conteúdo que fosse ser relevante na vida das pessoas.

Lá escrevia de tudo. De astronomia à geopolítica, de notícias à humor non sense. Descobri que algumas coisas geravam mais acessos e outras nem tanto. Fui começando a produzir o que trazia mais resultado e com o tempo meu blog foi se transformando, mudou de nome e de roupagem uma série de vezes.

Tomei conhecimento de que era possível gerar uma série de informações sobre os acessos que o blog tinha e que uma ferramenta tornava isso tudo mais simples. O Google Analytics. Comecei a usar depois de muito tempo, mas antes tarde do que nunca.

Uma das surpresas que citei no início foi encontrar esses dados que estão abaixo, um retrato da história desse blog.

Por uma série de motivos pessoais acabei largando no começo de 2011. O Site já tinha mais de 2 anos e tinha chegado a hora dele. Ainda assim, mesmo depois de eu ter largado ele continuou a ter alguns picos de acessos, também mantendo uma certa constância por conta do trabalho que eu fiz em SEO nele.

Mas meu tempo longe desse tipo de atividade não foi tão longo. Logo comecei de novo. Nova plataforma, novos usuários, novo conteúdo, novo Rafael.

Do costume de frequentar outros espaços na internet como sites de outros países eu percebi que alí tinham conteúdos que não estavam tão difundidos quanto poderiam estar no Brasil. Um exemplo disso eram os rage comics.

Personagens de domínio público que surgiram em imageboards de simplicidade e traços inconfundíveis. Como o “Troll Face”.

Não sabia criar tirinhas e o Paint não era suficiente, apesar de a primeira vista parecer que seria. Não sabia inglês e se eu tentasse traduzir humor com Google Tradutor não daria certo.

Aprendi Photoshop, Illustrator e inglês para dar conta do recado. Criei um mecanismo de produção em massa de postagens desse tipo e dei o start.

Criação eu aprendi fuçando e brincando com as ferramentas da Adobe (confesso que algumas eu ainda não aprendi de verdade até hoje) e inglês eu fui em parte aprendendo naturalmente consumindo textos na internet e me engajando em conversas com gringos e a outra parte foi um esforço em alterar meu ambiente para que ele ficasse o mais “inglesado” possível. Meu celular ficou em inglês e muitas outras coisas do dia a dia. No início foi um porre e eu só queria parar de fazer isso, mas persisti. Depois subi o level de dificuldade e comecei a me forçar a assistir coisas em inglês. A princípio com legenda em português mas que logo se tornaram legendas em inglês que logo sumiram. Admito que não entendia tudo, mas ao menos se alguém me perguntasse eu saberia explicar a história do filme.

Traduzia em massa, produzia em massa, postava em massa, interagia com minha base de usuários em massa. Fazia o trabalho de um time sozinho. Enquanto isso eu estudava e no tempo livre eu melhorava a experiência do visitante no site, tanto no que se refere ao design às formas de interação comigo.

Incentivava o sharing e tive a oportunidade de surfar na crista da onda desse tipo de meme no Brasil. Junto com outros sites, alguns morrendo e outros que se mantém vivos até hoje, como o “AhNegão” e “Não Intendo”.

O estrondo foi tanto que tive a oportunidade de transformar aquilo em renda. A experiência com anúncios foi curta, mas trouxe alguns mil reais a mais na minha conta, o que para um adolescente, ainda mais naquela época, era bastante grana. Fora a experiência de trabalhar com plataformas de afiliados e empresas como a Recreio, para quem fiz um publieditorial.

Totalmente na contramão do que aconteceu no primeiro blog que gerava pouquíssimo retorno financeiro com o Google AdSense.

Lembrei no meio tempo que tinha que gerar mais dados a respeito do que eu construí. Até porque a plataforma Tumblr não gerava todas as informações que eu precisava, muito porque o que eu fazia ia além de produzir para dashboard do Tumblr como também para usuários de fora. Voltei pro bom e velho Analytics lá pro meio de 2011.

Não vou mentir. Não soube aproveitar bem os dados (tanto que não capturei volume de impressões e coisas do tipo) e larguei o blog no seu auge, tanto de impacto social quanto de rentabilidade.

Também não segui alguns conselhos do tipo: “vira YouTuber”. Jurava que isso não ia dar em nada. Via, por exemplo, vídeos como o do Cauê Moura cantando sobre os mesmos memes que eu fazia e ao contrário do que eu achava, deu no que deu.

Até fiz um canal no YouTube, mas só postava coisinhas simples para ver qual era a da rede. Fiz a mesma coisa no Facebook. Hoje tanto o canal quanto a página sobrevivem. Os vídeos tendo algo em torno de uns 10~30k de views e a página algo entre 4~5k de likes.

A gente erra. É assim mesmo.

Se eu devia ter parado ou continuado? As vezes até eu me pergunto isso. E não tenho resposta melhor a dar para mim senão a de que eu fiz o que tinha de fazer.

Tive meus motivos. Precisei fazer concessões. Tive de dar um break em muita coisa.

Entrei na minha própria “Dark Digital Age“. Me afastei um pouco desse mundo e foquei em outras coisas. A bem da verdade eu enterrei aquilo no fundo da minha memória e agia como se muito daquilo nem tivesse acontecido.

Foi quando eu resolvi ser sujeito de uma pesquisa de Doutorado. Isso já no ensino superior. Na pesquisa aconteceram algumas conversas com o próprio pesquisador e nesses papos eu me vi olhando de volta para esse passado.

Mais do que a oportunidade de poder olhar para esse passado, eu me permiti sair da minha zona de conforto e voltar a ativa. Claro, devagar. Não estava no mesmo pique de antes.

Tive então minha primeira experiência profissional, no sentido clássico, com Marketing e Internet no projeto Wabbi. Uma plataforma de gestão inovadora que unia contador e empreendedor eliminando retrabalho e uma outra porção de outras coisas legais. Produzi conteúdo que posicionou muito bem no Google e conduzi uma campanha muito positiva em resultados.

Posso dizer que participei em parte do sucesso que a plataforma teve, sendo recentemente adquirida por uma gigante em gestão no Brasil. Me orgulho disso.

Estava respirando ares antigos mas ares muito frescos. E isso mudou a forma como eu me colocava diante do mundo.

Ainda não estava praticando Marketing a nível teórico, até porque meu conhecimento era muito prático, mão na massa, resultado, impacto social. E tampouco tinha embasamento de outras áreas. Costumava ser assim. Sabia o que precisava ser feito sem ter os fundamentos conceituais para dizer que esse e não aquele era o melhor caminho.

Aí entra a Psicologia. Curso que ainda venho fazendo na PUC-SP. O curso já havia me dado muitas coisas e agora poderia me ajudar a construir uma base para tudo que eu sempre vinha fazendo de um jeito mais prático.

Foi aí que no meio deste ano fui chamado para um novo desafio. E apesar de ainda me sentir enferrujado e não estando a altura do mesmo, eu topei.

Percebi que precisava aprender ainda mais. Continuar estudando com o mesmo afinco a Psicologia, mas tratar de aprender em teoria conceitos de Marketing Digital, Inbound Strategy, Business Planning e muitas outras coisas.

Não existia hora melhor para resgatar todo esse universo que deixei para trás mas que deixou seus rastros aqui e acolá. Tanto pelo valor afetivo, quanto profissional.

Pude dar andamento à uma série de projetos internos e encabeçar algumas operações com bastante coragem e determinação. Crescendo como pessoa.

E o que fica para mim é que eu agora consigo fazer um retrato mais panorâmico do que é a internet para mim. Me criei aqui. Sou quem sou por causa das coisas que fiz e aprendi no meio desse monte de zeros e uns que se convertem em palavras e imagens. Posso ver com mais clareza quem eu sou porque conheço melhor agora o caminho que eu segui para chegar até onde estou hoje.

Agora tenho muitos outros projetos e planos pessoais e profissionais, alguns bem ambiciosos, a propósito. A mesma energia Rafaélica, e a mesma vontade de aprender com tudo e todos, absorvendo o melhor que essa rede de fios e cabos mas que se tornou muito mais que fios e cabos tem para me oferecer.

Aprendizado. Uma palavra que resume o meu passado, o meu presente e o meu futuro.

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