O que é Precision Teaching e para que serve?

Introdução

A Análise do Comportamento é uma abordagem da Psicologia baseada no Behaviorismo Radical que tem como principal marco a explicação do funcionamento psicológico das pessoas a partir do conceito de condicionamento operante.

Das pesquisas em laboratório diversas aplicações se tornaram possíveis fora do contexto experimental controlado, da clínica à educação.

Na educação, em especial, os analistas do comportamento criaram uma miríade de métodos e técnicas de ensino, como o PSI de Keller (Personalized System of Instruction), a Instrução Programada de Skinner e o Precision Teaching de Lindsley (embora aparecendo pela primeira vez em Koenig (1967)), no qual vamos nos ater agora.

Definição e os 4 Pilares

Precision Teaching é um método de ensino fundado por Ogden Lindsley e desenvolvido por professores que tem como base os 4 pilares (LINDSLEY, 1990):

  1. Monitoramento diário de frequência
  2. Auto-monitoramento
  3. Uso de gráficos padronizados para mostrar mudanças bruscas
  4. Ninguém conhece melhor a criança do que ela mesma

O próprio fundador define o Precision Teaching da seguinte maneira: “Precision Teaching é basear decisões educacionais em mudanças auto-monitoradas em frequências de performance.” (LINDSLEY, 1992)

Posto de uma forma mais simples, Precision Teaching é utilizar os dados gerados pelo próprio auto-monitoramento das frequências comportamentais (isto é: quantas respostas corretas ou incorretas por minuto ele teve, por exemplo) do aluno para predizer performances futuras e com isso tomar decisões educacionais (que não são verticais, como o quarto pilar coloca, ou seja, a criança [ou adulto] conhece ela melhor do que ninguém) mais apropriadas e eficientes, focando sempre tanto o comportamento preciso [accurancy] e fluente [fluency].

Monitoramento diário de frequência

Este pilar chama a nossa atenção para dois fatores importantes na aprendizagem: tempo e dados ao longo do tempo.

Tempo. Usar como medida de aprendizagem a porcentagem de respostas corretas tem duas consequências ruins. A primeira é que usar porcentagem de respostas corretas para medir desempenho esconde diferenças relevantes na aprendizagem. A exemplo: duas crianças que tiraram 9 (90% de respostas corretas) não necessariamente tem o mesmo domínio do conteúdo. E a educação tendo como objetivo a apreensão e não somente a memorização do material tem que se ater também ao tempo necessário para executar a tarefa, visto que é um bom parâmetro para o domínio e fluência do que foi aprendido. A segunda é que a aprendizagem começa a tomar a seguinte forma: se torna lenta (na medida em que o comportamento final que vai ser reforçado não requer velocidade), altamente precisa e por fim, mas como consequência, o aluno se torna pouco tolerante a erros, encarando o desvio para baixo da porcentagem como extremamente aversivo (também por conta do esforço ambiental em tornar esse desvio aversivo, com sanções e punições), inibindo criatividade e exploração (LINDSLEY, 1990).

Dados o longo do tempo. Tão importante quanto embutir tempo na medida de desempenho, como acontece no uso de frequência, é usar medidas ao longo do tempo para acompanhar a evolução do aluno. Aplicar provas bimestrais e utilizá-las para representar o desempenho ao longo de dois meses é falacioso na justa medida em que é em primeiro lugar uma medida do quanto o aluno sabe responder questões de prova, e segundo é uma medida do quanto ele sabe responder aquelas questões naquele momento, naquele contexto. Assim, o que o Precision Teaching defende é a necessidade de avaliar o desempenho usando tempo e ao longo do tempo, sobretudo diariamente. O que permite um panorama mais vivo e orgânico e a qualquer momento (bastando olhar para o gráfico) da evolução do comportamento do indivíduo em contexto real, permitindo a predição futura, a partir do ritmo apresentado, e a alteração em estratégias de ensino para atingir determinados objetivos.

Auto-monitoramento

O auto-monitoramento por parte do aluno do próprio desempenho garante a ele uma apropriação e implicação maior do seu sucesso pedagógico. Muda, essencialmente, a chave do ensino de um comportamento passivo, que pouco tem a ver com o que é quase unânime hoje no mundo da Psicologia da aprendizagem e Pedagogia que é a importância de uma atitude ativa diante do que se aprende, para uma ação mais imersiva e ativa, principalmente.

Isso também confere ao aluno um poder maior sobre o próprio sucesso escolar, não colocando ele em uma posição submissa e de “pouco saber”. Podendo, acima de tudo, participar das decisões que vão resultar na mudança do seu desempenho.

Prova do valor dessa prática é que quase invariavelmente seu desempenho muda quando começa a se auto-monitorar, tornando a criança mais sensível a esse tipo de estímulo verbal construindo um repertório que é de especial importância para sua vida, tanto em condições em que auto-controle é necessário quanto em tomada de decisão.

Uso de gráficos padronizados para mostrar mudanças bruscas

Aqui três elementos são significativos: o uso de gráficos, o uso de padronização e a atenção à mudanças bruscas e não pequenas.

Uso de gráficos. O uso de gráficos, muito por conta do que foi dito já anteriormente, conduz a uma visualização mais rápida e representativa do que se passa com o desenvolvimento pedagógico de cada estudante em particular. Primordialmente é utilizado gráficos de curva acumulada de resposta, que por sua natureza nos leva a ser mais sensibilizados por mudanças grandes e não pequenas no comportamento.

Padronização. A padronização não é difícil de ser defendida quando estamos em um contexto no qual é necessária a comparação. Evitando mal-entendidos não se trata aqui da comparação entre alunos e sim entre o comportamento passado e presente dele mesmo. Esse tipo de postura é novamente um produto da história da análise do comportamento que se inicia nos ambientes experimentais. As principais descobertas quanto a processos comportamentais eram feitas utilizando metodologias científicas de sujeito único, sendo o sujeito experimental o próprio controle. Essa postura é bem clara na frase atribuída a Skinner: “Prefiro observar 1000x um indivíduo do que 1000 indivíduos 1x”. A padronização permite, portanto, uma comparação mais fiel de diferentes estratégias de ensino com um mesmo aluno, possibilitando também uma comunicação melhor entre profissionais da educação, uma vez que o dado está estandardizado.

Valorização de grandes mudanças em detrimento de pequenas. Em um ambiente complexo como é o da vida de qualquer organismo, por mais simples que ele seja, variáveis importantes sempre produzem e sempre produzirão mudanças grandes no comportamento deste, enquanto variáveis não tão importantes conduzem a um efeito inverso. Atentar para essa propriedade da relação entre organismo e meio nos leva a priorizar estratégias que manipulem as variáveis que produzem o primeiro resultado, pois são elas as mais relevantes no contexto de estudo. Em se tratando de Educação voltada à desempenho, é ainda mais importante ter esse tipo de preocupação. E a utilização de gráficos em curva acumulada de respostas permitem justamente isso. Ainda que eles escondam mudanças triviais quando mudanças ambientais são operadas. Lindsley defende que se mudanças triviais acontecem é porque a mudança de operação também o é (1990), e não é complicado encontrar quem também concorde.

O nome dado a estes gráficos preenchidos pela própria criança é: Standard Celeration Chart (que em português seria algo como Gráfico Padronizado de “Celeração”) e segue aqui dois exemplos, um vazio e um preenchido.

Exemplo de Standard Celeration Chart retirado de Behaviorbabe.com

Exemplo de um Standard Celeration Chart preenchido (LINDSLEY, 1992)

Ninguém conhece melhor a criança do que ela mesma

De todos os pilares talvez este possa ser o mais importante. Não a toa que é o slogan do Precision Teaching: The Child Knows Best.

A história dessa funding policy é explicada por Lindsley com referência a uma conversa que ele teve com Skinner na época em que era seu aluno em Harvard (1990). Ele conta que estudando processos de extinção comportamental os dados do experimento foram na contramão do que devia de se esperar de acordo com o livro-guia. Desorientado ele foi até Skinner e mostrou os gráficos, recebendo como resposta: “In this case the book is wrong! The rat knows best! That’s why we still have him in the experiment!

Essa posição dedicadamente empirista apontava tanto para a magnitude que a indução tem no processo de construção de conhecimento assim como para o fato de que devemos sempre colocar o fenômeno acima da teoria, a criança acima da nossa pré-concepção do que consideramos certo ou errado.

Isso quer dizer que em Precision Teaching a criança muitas vezes define qual vai ser a estratégia de ensino que vai ser utilizada, selecionando até mesmo como será recompensada e o que será monitorado, de comportamentos acadêmicos a comportamentos não-acadêmicos.

Desenvolvido para professores e pelos professores

Uma marca muito interessante do Precision Teaching é que ele não foi criado em ambientes artificiais e sem conexão com a prática dos professores. O próprio Lindsley deixa claro (1990, 1992) que os professores são os grandes desenvolvedores da prática, fazendo descobertas que até mesmo nutrem o campo experimental da análise do comportamento. Uma compilação de algumas das descobertas é encontrada no seu artigo (1992) que vai estar nas referências bibliográficas.

Precision Teaching funciona?

Dos muitos exemplos que poderiam ser apresentados, dois são os mais interessantes:

Ensino de crianças (JOHNSON, 1989). Em combinação com outros métodos comportamentais como Direct Instruction, e Instructional Design de Tiemann-Markle foi possível fazer crianças rotuladas com problemas de aprendizagem avançarem mais de 2 séries por ano. A instituição, inclusive, aceitou devolver o dinheiro para a criança que não avançasse ao menos duas séries por ano e nunca precisou fazer esse refund.

Ensino de adultos (JOHNSON, 1991). Aplicada em repertórios de escrita, leitura e matemática conseguiu fazer adultos avançarem quase 2 séries por mês. Com uma média de 20h de instrução por mês eles conseguiam avançar algo em torno de 1,7 série por mês, sendo que na época o standard americano era uma exigência de 1 série para cada 100h. Ou seja, o método baseado em Precision Teaching era overproductive, ensinava muito mais em muito menos tempo e com muito mais qualidade.

Referências bibliográficas

Citadas

Artigo do Blog sobre o PSI de Keller

KOENIG, C. Precision Teachig with emotionally disturbed children. Dissertação de Mestrado. Universidade de Kansas, 1967.

LINDSLEY, O. Precision Teaching: By Teachers for Children. Teaching Exceptional Children p.10-15. Spring, 1990.

__________. Precision Teaching: Discoveries and effects. Journal of Applied Behavior Analysis, n. 1, p.51-57. Spring, 1992.

Para consulta e aprofundamento

KUBINA, R. M. & MORRISON, R. S. Fluency in education. Behavior and Social Issues, 10, 83-99. 2000
p.79-89, 1968.
SKINNER, B.F. Tecnologia do Ensino. São Paulo: EPU, 1972.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *